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Opinião de Humberto D. Rosa, Diretor para o Capital Natural D-G Ambiente, Comissão Europeia

Não vejo melhor marca de sucesso para uma verdadeira cidade inteligente e sustentável do que investir numa maior rede de natureza urbana
Uma cidade inteligente tem que ser verde e azul

O conceito de 'cidade inteligente' ('smart city') está cada vez mais difundido na Europa, e ainda bem. Não apenas pela mais-valia do termo – quem poderia preferir cidades 'estúpidas'? –, mas também pelo apelo implícito a progresso, melhor concepção e mais planeamento das nossas cidades.

O facto é que se estima que cerca de 75% da população europeia viva em zonas urbanas, de onde se infere de imediato como muitos dos problemas das sociedades modernas terão de se resolver nas cidades.

Muitas pessoas associarão a ideia de uma cidade inteligente essencialmente ao desempenho energético dos edifícios e serviços, ao planeamento logístico e ambiental dos transportes, ou quando muito também a uma boa gestão de resíduos e águas. O meu ponto é que, sendo estes aspectos fundamentais, não bastam de todo para uma cidade merecer o rótulo de 'smart city'.

Uma cidade inteligente precisa além disso de uma boa dose de natureza e biodiversidade no seu seio, combinando componentes aquáticos e de vegetação devidamente planeados, promovidos e geridos como uma verdadeira rede de infra-estrutura verde e azul.

Na realidade é nas zonas urbanas que se concentra mais gente que pode beneficiar de mais natureza para a sua saúde e bem-estar. Os citadinos tem muitas vezes limitações de espaço de qualidade, sofrem com a poluição de vários tipos, ou são vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, como cheias ou ondas de calor.

Muitos urbanitas simplesmente anseiam por mais espaços verdes na sua proximidade. Imersos diariamente num mundo artificial e construído, têm genuíno gosto e mesmo necessidade de ter mais acesso à natureza, cujos benefícios para a saúde física e mental e para a inclusão social estão bem demonstrados. Para além disso, sucede que a natureza em meio urbano oferece soluções muitas vezes com benefícios múltiplos, numa boa proporção de custos e benefícios, com vantagens sociais e económicas, e que contribuem para a resiliência urbana.

Apostar na biodiversidade e serviços dos ecossistemas urbanos através de uma rede bem concebida de espaços naturais, fomentando a vegetação e fauna, contribui para a qualidade de vida, saúde e bem-estar; protege contra extremos climáticos e desastres naturais; contribui para a regeneração urbana e para a diversificação económica. A infra-estrutura verde e as soluções naturais nas cidades ajudam ainda a criar um sentido de comunidade e a combater a exclusão social e o isolamento.

Estou convencido que é nas cidades que reside o maior potencial para esta aposta verde-azul, que deve ser encorajada. Na Comissão Europeia estamos prontos a partilhar o conhecimento acumulado através da iniciativa de Mapeamento e Avaliação dos Ecossistemas e seus Serviços (MAES) na sua vertente específica para o meio urbano, da qual Cascais foi um dos dez primeiros casos-piloto. Também não faltam oportunidades de apoio financeiro nos fundos europeus, sejam o regional e de coesão, o social, o de investigação e desenvolvimento, ou o fundo LIFE para o ambiente e clima.

Numa altura em que se prepara um plano europeu de ação para a natureza e para a Rede Natura 2000, não devemos esquecer que também muitas cidades são ou podem vir a ser ricas de espaços naturais urbanos e peri-urbanos.

Não vejo melhor marca de sucesso para uma verdadeira cidade inteligente e sustentável do que investir numa maior rede de natureza urbana, prenhe de serviços de ecossistemas e benefícios múltiplos para a  qualidade de vida e o bem-estar dos seus cidadãos.

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